As uvas do MST estão maduras

01/02/2013 11:48

 

publicado em 30 de janeiro de 2013 às 20:46

Foto Conceição Oliveira

Na foto: suco de uva integral, arroz organico, feijao sem agrotroxicos, produzidos por cooperativas vinculadas ao MST

por Luiz Carlos Azenha

Acho que foi no caderno Paladar, do Estadão, no ano passado, que li simpática reportagem sobre a produção de alimentos orgânicos nos Estados Unidos, repleta de elogios à produção em pequena escala, de gente tão ou mais preocupada com a comunidade e a saúde dos consumidores que com o lucro.

Small, como em agricultura familiar, is beautiful.

Pensei comigo: nos Estados Unidos, pode!

Irônico imaginar o texto num jornal que representa o agronegócio e sustenta que o MST é uma relíquia do tempo da Guerra Fria e que não há problema no campo brasileiro que justifique sua existência.

Hoje, no caderno Comida, da Folha, leio — outra vez surpreso – A redenção das uvas nativas, na qual Cristiana Couto e Alexandra Corvo falam de iniciativas europeias para “recuperar uvas próximas do desaparecimento” e produzir “vinhos com mais identidade”.

“Uma das vantagens de recuperar castas autóctones é que elas já estão adaptadas ao seu lugar de origem”, diz o texto a certa altura.

“O principal motivo que move os produtores é a consciência de preservar um patrimônio genético e histórico”, continua.

“‘Esse movimento não é apenas uma tendência’, ressalta Jancis Robinson [inglesa, autora do livro Wine Grapes]. Está em sintonia com a atenção à comida local e com nossa consciência cada vez maior da importância da biodiversidade’”.

De novo, pensei: na França, na Itália e em Portugal, pode!

Sim, porque defender a biodiversidade é uma das principais propostas do MST. Por que, afinal, o movimento se volta contra o uso extensivo dos agrotóxicos e das sementes transgênicas e defende a agroecologia?

Na verdade, o MST faz parte de um despertar global para questões que dizem respeito diretamente à nossa saúde e ao nosso prazer, à preservação cultural e ao desperdício de água e recursos, como em “nova-iorquino come morangos frescos 12 meses por ano”.

Não são, certamente, firulas ideológicas, mas questões de vida ou morte.

Certa vez, a prêmio Nobel queniana Wangari Maathai nos deu uma excelente entrevista falando da importância de trazer de volta o sorgo a regiões da África onde a agricultura voltada para exportação já o havia substituído por plantas que consumiam uma quantidade muito maior de água, com o risco de desviar água de populações inteiras para a irrigação.

Não há nada mais contemporâneo, portanto, que a pauta do MST. Quanto aos jornais que acusam o movimento de ser algo ultrapassado, aparentemente o futuro deles repousa nos cadernos de Culinária.

Fonte: Secretaria GeraL MST