Desastres climáticos deram prejuízo de US$ 160 bi em 2012, diz estudo

07/01/2013 14:36

 

A humanidade ainda está no caminho da autodestruição, diz guru ambiental

Em 1972, o guru ambiental Dennis Meadows previu em seu estudo seminal “The Limits to Growth” (“Os limites para o crescimento") que o mundo estava caminhando para um colapso econômico. O fato de o colapso econômico não ter ocorrido, não o faz desacreditar que ocorrerá no futuro. "Não há dúvida de que o mundo está mudando, e nós vamos ter de acompanhar essas mudanças. Há duas maneiras de fazer isso: uma é você perceber a necessidade de mudança antes do tempo e realizar a alteração necessária. A outra é você não fazer nada e, no final, ser obrigado a fazer a mudança de qualquer maneira", responde Meadows à Markus Becker.

A entrevista foi publicada pela revista Der Spiegel e reproduzida pelo portal Uol, 26-12-2012.
Eis a entrevista.
Professor Meadows, 40 anos atrás, você publicou "The Limits to Growth" ("Os limites para o crescimento", em tradução livre) com sua esposa e seus colegas. Esse livro transformou você no pai intelectual do movimento ambiental. A mensagem central do livro continua válida hoje: a humanidade está explorando brutalmente os recursos naturais e está no caminho da autodestruição. Você acredita que o colapso final do nosso sistema econômico ainda pode ser evitado?
O problema que deve ser enfrentado por nossas sociedades é o fato de termos desenvolvido indústrias e políticas que eram adequadas para um determinado momento histórico, mas que agora começam a reduzir o bem-estar da humanidade. Por exemplo: a 
indústria do petróleo e dosautomóveis. Seu poder político e financeiro é tão grande que ela é capaz de impedir as mudanças. Eu espero que ela tenha sucesso. Isso significa que nós vamos evoluir por meio de uma crise, e não por meio de uma mudança proativa.
Várias das previsões centrais feitas em seu livro se tornaram realidade, como o crescimento exponencial da população mundial e a destruição ambiental generalizada. Mas sua previsão de que o crescimento econômico cessaria e que a economia mundial entraria em colapso ainda não aconteceu.
O fato de o colapso não ter ocorrido até agora não significa que ele não acontecerá no futuro. Não há dúvida de que o mundo está mudando, e nós vamos ter de acompanhar essas mudanças. Há duas maneiras de fazer isso: uma é você perceber a necessidade de mudança antes do tempo e realizar a alteração necessária. A outra é você não fazer nada e, no final, ser obrigado a fazer a mudança de qualquer maneira. Vamos dizer que você esteja dirigindo um carro dentro de um armazém ou de uma fábrica. Há duas maneiras de parar o carro: ou você põe o pé no freio ou você continua até bater na parede. Mas você vai parar, pois o edifício é finito. E o mesmo vale para os recursos da Terra.
Isso soa convincente, mas será que é realmente verdade? Será que as empresas privadas não vão reagir à escassez de recursos com inovação, em um esforço para manter sua lucratividade?
As mudanças realmente grandes não são promovidas por indústrias estabelecidas. Quem fez o iPhone? Não foi a Nokia nem a Motorola nem nenhum dos outros fabricantes de celulares estabelecidos. O iPhone foi criado pela Apple, que estava totalmente fora desse setor. Há muitos outros exemplos desse tipo.
E quanto às áreas que estão sob o controle de governos ou são regidas por algum tipo de regulamentação?
Essa situação é ainda pior. Nossa história com a pesca mostra que estamos destruindo os 
ecossistemas dos oceanos, por exemplo. E estamos usando nossa atmosfera como um depósito gratuito de lixo industrial. Ninguém recebe incentivos para protegê-los.
Será que o desejo de sobrevivência da humanidade não é motivação suficiente?
Veja você, existem dois tipos de problemas de grandes dimensões. Um desses grupos eu chamo de problemas universais e o outro eu batizei de problemas globais. Ambos afetam a todos. A diferença é a seguinte: os problemas universais podem ser resolvidos por pequenos grupos de pessoas, pois elas não têm de esperar pelos outros para agir. Você pode limpar o ar em Hanover sem ter que esperar que Pequim ou a Cidade do México façam o mesmo. Os problemas globais, no entanto, não podem ser resolvidos em um único lugar. Não há nenhuma maneira de Hanover conseguir resolver a questão das mudanças climáticas ou impedir a disseminação de armas nucleares. Para que isso aconteça, as pessoas na China, nos EUA e na Rússia também precisam fazer alguma coisa. Por isso, não faremos nenhum progresso em relação aos problemas globais.
Você não está subestimando as pessoas e sua reação no momento em que elas forem encostadas contra a parede? O empresário australiano e ambientalista Paul Gilding, por exemplo, diz em seu livro "The Great Disruption" ("A Grande Ruptura", em tradução livre) que, apesar de a crise estar se aproximando, a humanidade vai se mobilizar para combatê-la como costumamos fazer em tempos de guerra.
Ele está certo. Mas será que a humanidade vai conseguir? Ela até poderia conseguir caso os atrasos fossem menores. Mas, infelizmente, eles não são. Em relação às mudanças climáticas, por exemplo, os atrasos são grandes. Mesmo que reduzíssemos a zero nossas emissões de gases de efeito estufa hoje, o 
aquecimento global ainda se manteria durante séculos. O mesmo é válido para o solo, que estamos destruindo em todo o mundo. A recuperação pode levar séculos.
Com certeza as inovações tecnológicas têm servido para reduzir o impacto de alguns problemas no longo prazo. Desde que seu livro foi lançado, quatro décadas atrás, a medicina moderna, por exemplo, tem aumentado a expectativa de vida das pessoas e reduzido a mortalidade infantil. As novas tecnologias aumentaram drasticamente as colheitas – e os computadores e a internet reduziram as distâncias e melhoraram o acesso à educação. 
A tecnologia não inventa a si própria. Essas conquistas foram resultado de décadas de trabalho duro – e alguém tem de pagar por esses programas. Uma grande fonte de dinheiro são os orçamentos militares. Outra fonte são as empresas, e elas não estão motivadas a resolver os problemas globais. Elas estão motivadas a ganhar dinheiro. As empresas farmacêuticas dos Estados Unidos gastam mais dinheiro na prevenção da calvície do que na prevenção das infecções por HIV. Por quê? Porque os ricos ficam carecas e as pessoas pobres pegam HIV.
Mas imagine os lucros que o inventor de uma nova fonte de energia, limpa e ilimitada, obteria. 
Eu espero que você não esteja falando a respeito de fusão, porque isso é besteira. Acho que vamos descobrir uma nova e importante 
fonte de energia. Mas depois dessa descoberta, levaria décadas para que seu impacto fosse sentido. Mesmo que não houvesse nenhuma resistência a ela, mesmo que não houvesse impactos ambientais ou até mesmo se essa nova fonte de energia não levasse um monte de gente à falência – ainda assim, levaria muito tempo para implementá-la totalmente. Então, se alguém disser a você que a tecnologia vai nos salvar dessa forma, essa pessoa não sabe como as tecnologias são desenvolvidas.
E os recursos naturais? Previsões passadas diziam que não haveria quase nenhum petróleo disponível em 2012, mas ainda parece existir muito petróleo disponível. Estimativas recentes chegam até a mostrar que os EUA em breve produzirão mais petróleo do que a Arábia Saudita. 
Pode ser que sim. Mas as reservas de petróleo de que estamos falando são escassas e muito caras para explorar. E elas também se esgotarão um dia. E então teremos um problema. Por exemplo: eu tenho uma vizinha rica. Digamos que a conta de luz dela corresponda a 1% de sua renda. Então, chega o 
furacão Sandy e, de repente, ela fica sem energia elétrica em casa. Será que a qualidade de vida dela vai piorar 1%? Não! A comida dela vai estragar, ela não poderá ligar as luzes de casa, ela não poderá mais trabalhar. Será um desastre para ela. Dê uma olhada ao seu redor. A cadeira em que você se senta, a janelas de vidro, as luzes – tudo está aqui por uma razão simples: nós gostamos de energia barata.
Vamos supor que você esteja certo e que o colapso vai chegar neste século. Como ele será?
Ele vai ser diferente em lugares diferentes. Alguns países já estão entrando em colapso, e algumas pessoas nem vão perceber. Há quase um bilhão de pessoas morrendo de fome atualmente, e as pessoas aqui basicamente não estão percebendo. E há a questão da velocidade: a diferença entre o declínio e o colapso é a velocidade. Os ricos pode pagar para escapar de várias situações. O fim da energia fóssil, por exemplo, será gradual. Mas as
mudanças climáticas também alcançarão os países industrializados, independentemente do que vier a acontecer. E os registros geológicos mostram claramente que a temperatura global não aumenta de forma linear. Ela salta de repente. Se isso acontecer, um colapso ocorrerá. Mas não seria nada de novo, é claro. Sociedades surgem e desaparecem. E isso tem ocorrido com elas há 300 mil anos.

reuniões da ONU geraram poucos resultados práticos

ONU (Organização das Nações Unidas) tem realizado há anos gigantescas reuniões de cúpula para debater as mudanças climáticas. Mas esses encontro têm gerado poucos efeitos práticos. Atualmente, os especialistas – que acreditam não haver quase nenhuma chance de assegurar um acordo global sobre a redução das emissões – querem abandonar o sistema atual e tentar algo novo.

A reportagem é de Axel Bojanowski, publicada na revista Der Spiegel e reproduzida pelo Portal Uol, 02/01/2013.
Foi difícil ignorar a sensação de déjà vu. Imediatamente após o término da conferência sobre o clima, ocorrida em dezembro em DohaPeter Altmaier, ministro do Meio Ambiente da Alemanha, insistiu que a reunião havia "aberto a porta para o futuro da proteção internacional do clima".  
Esse foi um comentário que lembra as numerosas tentativas feitas por importantes políticos nos últimos anos para 
vender como sucesso mais uma fracassada reunião de cúpula para discutir as mudanças climáticas.  Em 2012 o encontro escapou por pouco do colapso após um acordo de última hora ter sido fechado e os participantes terem definido que a reunião de 2015 será o fórum adequado para a fixação de um acordo global para a redução de emissões. Parece que todos se esqueceram de que tal acordo deveria ter sido firmado durante o encontro de cúpula de 2009, realizado emCopenhague, na Dinamarca.
Até mesmo a definição do que é sucesso para essas reuniões foi drasticamente encolhida. A conferência, disse Hans-Joachim Schellnhuber, conselheiro de longa data do governo alemão para mudanças climáticas, pode ser "considerada como um sucesso, pois o colapso do árduo processo de negociação no âmbito das Nações Unidas foi evitado".
Mas importantes pesquisadores do clima já estão fartos dessa situação. Vários especialistas de renome, que atuam em importantes institutos internacionais na Alemanha, estão exigindo um fim para a farsa das cúpulas do clima. É hora de começar a enfrentar a realidade de um futuro mais quente, em vez de humildemente insistir que o aquecimento global pode ser retardado sem que sejam adotadas medidas para que isso aconteça, dizem eles.  
O sonho de um acordo acabou 
O período caracterizado pela "gestão inteligente das expectativas por parte da ONU" está chegando ao fim, diz Oliver Geden, especialista em clima do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança, em Berlim. "A expectativa de que a piora do problema iria pressionar a comunidade internacional para que fosse encontrada uma solução não se confirmou – e isso provavelmente não se confirmará".
"O sonho de um acordo mundial acabou", concorda Frank Uekötter, historiador ambiental do Centro Rachel Carson para o Meio Ambiente e a Sociedade. "A eliminação (do regime de 
encontros de cúpula) criaria espaço para uma nova dinâmica".
Mas, para muitos, essas declarações beiram o sacrilégio. Ambientalistas têm mantido expectativas enormes em relação ao processo de negociações climáticas da ONU, e acreditaram durante anos que esse processo acabaria por resultar em um acordo global para a redução das emissões de gases do efeito estufa. O processo deveria, em suma, alcançar a meta quase inatingível de produzir um sucessor mais rigoroso para o fraco e, em grande parte, não compulsório Protocolo de Kyoto – um sucessor que limitaria o aquecimento global a 2 graus Celsius (ou a 3,6 graus Fahrenheit).
Em vez disso, o processo – que tem culminado todos os anos em encontros de cúpula de grande repercussão e que, invariavelmente, terminam em decepção – só conseguiu produzir uma série de acordos para que se chegasse a um acordo. "Eu nunca compreendi como negociações que nem sequer funcionam entre 20 países poderiam funcionar no modelo da ONU, com 194 países participantes", diz Geden. "Nauru ou Tuvalu não vão dizer aosEUA e à China o que eles devem fazer". Geden acrescentou que, provavelmente, seria mais produtivo se os líderes negociassem em grupos menores.

Geden e Uekötter se unem em seu ceticismo a vários e respeitados acadêmicos e especialistas do clima da Alemanha. Maximilian Mayer, cientista político da Universidade de Bonn, diz que as negociações climáticas da ONU correm o risco de se transformar em "uma forma de tecnocracia controlada por especialistas", e propõe uma "desaceleração significativa do processo de negociações sobre o clima da ONU".    
Devemos descartar a meta de 2 graus Celsius? 
Silke Beck, especialista em clima do Centro Helmholtz para Pesquisa Ambiental, critica as reuniões de cúpula devido ao fato de elas serem pouco mais do que mero "simbolismo", e diz que a questão do aquecimento global é "grande demais" para o atual processo da ONUHans von Storch, doInstituto de Pesquisa Costeira do Centro Helmholtz, acrescenta que o processo tem transformado pesquisadores em pouco mais do que "lanterninhas no teatro político".
Mas o que pode ser feito? A resposta dada por muitos é uma surpresa. A meta de limitar o aquecimento global a apenas 2 graus Celsius ganhou importância demais, dizem eles, pois ela garante que o foco do debate público permaneça quase que exclusivamente em cima da redução das emissões de dióxido de carbono. No entanto, após duas décadas de negociações fracassadas, o objetivo dos 2 graus Celsius provavelmente já se tornou inatingível. É hora de ampliar o foco, dizem eles.
"A discussão atual se prende demais aos gases do efeito estufa", diz Uekötter. O historiador se refere aos recentes fracassos das conferências climáticas como a "fase da inércia".
Em vez disso, muitos dizem que as medidas destinadas a lidar com as inevitáveis consequências das mudanças climáticas devem se transformar no centro das atenções. Isso envolveria incluir iniciativas locais na abordagem mais ampla das Nações Unidas, em vez de apenas focar na temperatura média global. A Alemanha, por exemplo, avançou com um plano de multibilionário (em euros) destinado a proteger seu litoral do avanço do nível do mar e da piora das tempestades. Mas essas questões, em geral, não são abordadas nas conferências climáticas da ONU.
Desprezo pela realidade 

"A situação é absurda", diz Sebastian Wiesnet, da Universidade de Bamberg. "Seria mais honesto, em relação aos eleitores, dar um passo a trás e pensar sobre como seria possível realmente implementar uma proteção para o clima global". Os esforços para que possamos nos preparar para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas, diz ele, não só poderiam ser implantados mais rapidamente, como também seriam mais baratos do que os esforços para a redução das emissões.
Além disso, os efeitos das mudanças climáticas são diferentes de lugar para lugar e, muitas vezes, esses efeitos são ampliados pelas realidades locais. Quando se trata de surtos de tempestades perigosas que ameaçam as ilhas do Pacífico Sul, por exemplo, a conferência do clima da ONU tende a se concentrar exclusivamente na elevação do nível do mar. Mas o problema é geralmente ampliado devido à destruição dos recifes de coral por pescadores, por exemplo. "No nível local, outras condições que mudam com mais velocidade muitas vezes trazem mais consequências negativas do que as mudanças climáticas", diz o cientista político Mayer. 
Qualquer tipo de distanciamento da meta de 2 graus Celsius, é claro, seria politicamente arriscado. Para muitos, isso soaria como uma abdicação e um recuo após décadas de promessas para que, finalmente, fosse lançado um esforço global de combate ao aquecimento global. Mas os pesquisadores estão começando a chegar à conclusão de que não haverá outro jeito de lidar com a questão.
Os modelos climáticos simulados por comutador de hoje em dia, que são o fundamento de todas as negociações climáticas da ONU, representam o "desprezo quase completo pela realidade", diz Werner Krauss, do Centro Geesthacht Helmholtz de Materiais e Pesquisa Costeira. "O mundo que está sendo salvo existe apenas nesses modelos".

Polônia trava guerra contra esforços para salvar o clima

A Polônia é viciada em carvão. Essa é a mensagem que o país está passando tanto doméstica quanto internacionalmente, à medida que Varsóvia se prepara para sediar a cúpula do clima no ano que vem.

A reportagem foi publicada na revista Der Spiegel e reproduzida no Portal Uol, 28/12/2012.
Na Europa, os poloneses estão isolados em sua luta por metas menores de redução de emissões e contra alterações no sistema de créditos de carbono da UE.
Não é todo dia que um pequeno escritório de advocacia recebe a visita de uma agência de segurança doméstica. Logo, Tomasz Wlodarski, o diretor do Serviço de Lei Ambiental da Polônia, disse ter ficado surpreso quando recebeu recentemente a visita da polícia federal da Polônia. Ainda mais estranho, as autoridades não perguntaram nada que já não tivesse sido publicado a respeito da organização.
"Perseguição seria um exagero", disse Wlodarski. "Mas são ações que visam fazer as pessoas se sentirem pressionadas."
Sua organização não foi a única visitada. E as autoridades do governo têm feito sua parte por meio da imprensa. Em outubro, o ministro do Tesouro da Polônia, Mikolaj Budzanowski, criticou uma organização ambiental anticarvão ao dizer a um jornal local que a ONG "deveria aceitar que há limites a suas atividades", e que ela "ultrapassou seus limites". Essas declarações fizeram duas dúzias de ONGs escreverem uma carta severa ao primeiro-ministro Donald Tusk, tratando do que chamaram de um "ataque sem precedente" à sociedade polonesa, segundo o site de notícias europeu EurActiv.
A aparente pressão sobre os grupos ambientais, apesar de preocupante, não parece inconsistente com a abordagem de Varsóvia a questões ligadas à mudança climática. A Polônia dependente de carvão prosseguiu em sua oposição virtualmente solitária ao amplamente apoiado –e extremamente necessário– ajuste de curto prazo no sistema de comércio de carbono da Europa, a principal política do continente na luta contra o aquecimento global. Mas isso não fez a Polônia ser condenada internacionalmente ao ostracismo. Pelo contrário, ao mesmo tempo em que ajudou o país a bloquear a capacidade da Europa de 
apresentar uma frente unida na recente conferência do clima em Doha, a Polônia foi escolhida para sediar a próxima conferência, em 2013.
É uma decisão que parece destinada a tornar a conferência do ano que vem, que visa elaborar um pacto global para redução das emissões dos gases do efeito estufa, tão fracassada quanto nos últimos anos.

‘Carvólatras’

O pessimismo vem do vício da Polônia em carvão – e do interesse próprio do governo no status quo. Recentemente, Tusk disse em uma coletiva de imprensa que "energia é a chave para a política". E na Polônia, há pouca diferença entre os dois. Apesar da queda do comunismo quase duas décadas e meia atrás, grande parte do setor de energia da Polônia permanece sob controle do governo. Apesar de muitas das maiores empresas de energia terem sido privatizadas, o Tesouro polonês frequentemente mantém uma participação acionária significativa.
"Há muitos interesses na manutenção do sistema atual, de modo que o sistema de energia renovável é disperso demais para beneficiar os agentes certos no sistema", disse Michael LaBelle, um professor da Universidade Centro-Europeia em Budapeste, que leciona políticas energéticas. "Eles são carvólatras, esse é o melhor termo a ser usado, é horrível, mas real."
A Polônia é a 10ª maior consumidora de carvão do mundo e produz 92% de sua eletricidade a partir do carvão, segundo a Associação Mundial do Carvão. E apesar das metas da União Europeia para coibir as emissões de gases do efeito estufa, a Polônia está apresentando planos para substituir as velhas usinas a carvão por novas imensas.
Isso não combina com os planos de redução de emissões de CO2 da Europa. À medida que cresce o sistema de créditos de carbono da Europa e ele se torna mais abrangente, o carvão deverá se tornar mais caro. Mas a Polônia responde tanto combatendo os ajustes no Sistema Europeu de Comércio de Emissões (ETS, na sigla em inglês) – que tem sido minado por preços cronicamente baixos para os certificados de emissões– quanto metas mais ambiciosas para redução das emissões de carbono. Varsóvia também pressionou para obter permissões para poluição adicional para as usinas existentes e para as novas.
"Há uma situação no momento na Polônia onde o governo está pressionando as empresas estatais a construírem novas usinas a carvão", disse Marcin Stoczkiewicz, um advogado da ClientEarth, uma importante organização de lei ambiental na Europa. "Às vezes esses investimentos não são desenvolvidos de acordo com a lei ambiental, especialmente a lei ambiental da UE."

‘Um ataque contra nossa organização’

ClientEarth não fez muitos amigos dentro do governo polonês. Apesar de Stoczkiewicz ter dito que os escritórios de sua organização na capital polonesa não foram visitados pela polícia, o grupo foi alvo de comentários de Budzanowski, o ministro do Tesouro, em outubro.
"Isso representou um ataque contra nossa organização e outras organizações civis", disse Stoczkiewicz. "O clima da conversa mudou. Parece que o governo está tentando promover o carvão, investimentos sujos, mesmo que esses investimentos violem a lei."
O esforço também é internacional. Neste ano, a Polônia vetou duas vezes novas metas de redução dos gases do efeito estufa. E apesar desses vetos poderem ser contornados, a Polônia também está atrapalhando as tentativas para fazer o Sistema Europeu de Comércio de Emissões funcionar. O sistema busca baixar gradualmente o número de certificados de emissão de carbono no mercado aberto, tornando lentamente mais caro emitir carbono na atmosfera. Mas o mercado está atualmente saturado, levando a um preço por tonelada de emissão de apenas 7,13 euros, muito abaixo do necessário para desestimular a ação.
Há uma frente unida por toda a Europa –uma que inclui não apenas importantes políticos europeus, mas também grandes empresas de utilidade pública e petrolíferas como a Shell– que concorda que um ajuste é necessário. E um ajuste a curto prazo, envolvendo a redução temporária de emissões no mercado, está na mesa.
A Polônia, entretanto, não faz parte dessa frente. Na segunda-feira, a Polônia alegou que a proposta de emenda ao ETS custaria ao país mais de 1 bilhão de euros nos próximos sete anos, segundo o site de notícias European Voice. É uma declaração consistente com a posição franca da Polônia de que não se deve mexer com o ETS, mesmo que a necessidade de um ajuste seja urgente.

O limite?

"O Sistema de Comércio de Emissões está funcionando como um imposto pesado sobre países como a Polônia", disse o ministro do Meio Ambiente polonês, Marcin Korolec, em uma entrevista com a Spiegel Online. "Nós já estamos no limite do que nossa indústria e nossos cidadãos podem pagar."
Ainda assim, parece improvável que a Polônia conseguirá deixar de enfrentar o problema a longo prazo. Mesmo com as emissões de CO2 atualmente baratas, o preço certamente subirá no futuro, pressionando a Polônia a reduzir sua própria produção do poluente. A situação atual, que vê o país dependente de eletricidade de usinas a carvão da era soviética cujo preço já foi pago e são baratas de operar, não poderá ser sustentada por tempo indeterminado.
Mas uma maior ênfase no gás natural, que é mais limpo do que o carvão, apesar de ainda ser um combustível fóssil, é problemática para o país. Grande parte da oferta de gás natural da Europa vem da Rússia, um país no qual a Polônia historicamente não confia. A pouca disposição que existe na Polônia para buscar o caminho do gás natural se concentra principalmente na exploração de gás de xisto do país. 
E quando se trata do desenvolvimento de energias renováveis, há frustração na comunidade ambiental. Muitos dizem que a posição da Polônia a respeito de energia renovável deriva mais de questões ideológicas do que de um estudo dos aspectos econômicos e viabilidade a longo prazo. Julia Michalak, uma diretora de políticas da Rede Europeia de Ação Climática, disse que o forte lobby da mineração alinhado com o governo, somado à ênfase de Varsóvia na segurança de energia, contribui para a política de bloqueio e combate à política climática de Bruxelas.
"O que é necessário é uma análise robusta e detalhada tanto dos custos quanto dos benefícios", disse Michalak. "Até o momento eu não vi isso."
Resumindo, o carvão parece ser a única estratégia de Varsóvia quando se trata de energia. E o governo polonês está dando continuidade aos grandes investimentos em usinas elétricas a carvão, planejando gastar 24 bilhões de euros no setor de energia nos próximos oito anos, com grande parte disso destinado a novas usinas a carvão de 11.300 megawatts –uma quantidade equivalente ao pico de consumo de eletricidade de Israel durante uma onda de calor.
"Nossa economia é dependente da eletricidade produzida pelo carvão", disse Stoczkiewicz. "Isso é fato. Mas a política deveria buscar mudar esse mix ruim de energia e tentar encontrar fontes mais limpas de energia."
Mas essa mudança, entretanto, não parece estar no futuro próximo do país.

 

fonte: Secretaria Geral do MST.