EAACONE e MOAB fazem visitas às comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, estado Paraná.

06/02/2015 11:18

Imagens Ewerton Liborio

Do dia 09 ao dia 25 de janeiro de 2015 a EAACONE: Equipe de Articulação e Assessoria às Comunidades Negras e MOAB: Movimento dos Ameaçados por Barragem do Vale do Ribeira fizeram uma rodada de visitas às comunidades quilombolas do Vale do Ribeira que se localizam no lado paranaense.

Foram visitadas as comunidades quilombolas de Varzeão, Areia Branca, Estreitinho, Três Canais, Bairro dos Roques, Porto Velho, Sete Barras, Córrego das Moças, Córrego dos Francos, Indaiatuba e João Surá.

Os integrantes da equipe da EAACONE e MOAB que realizaram as visitas foram: Antonio Carlos Nicomedes, presidente da EAACONE e coordenador do MOAB, Nilton Morato, liderança do quilombo Córrego do Franco e articulador da EAACONE nos quilombos do Vale do Ribeira-PR, Antonio Carlos de Andrade, liderança do quilombo João Surá e articulador da EAACONE nos quilombos do Vale do Ribeira-PR e Ewerton Libório, coordenador dos trabalhos de base nas comunidades quilombolas do Vale do Ribeira- São Paulo/Paraná.

Nas comunidades em que passaram puderam constatar que todos ficaram contentes com a presença da EAACONE e do MOAB, pois tem nos trabalhos dessas entidades a esperança de se organizarem para lutar pelos seus direitos, em busca de titulação de suas terras, igualdade racial e políticas públicas que tragam melhor qualidade de vida, que respeite a cultura e o estilo de vida tradicional de ser.

Comunidade quilombola de Varzeão - Dr. Ulisses

Por onde passaram, a equipe da EAACONE e MOAB foi conversando com as pessoas e ouvindo o que elas tinham para falar sobre os problemas que os assolam, como: falta de saneamento básico, falta de transporte público regular, estradas em péssimas condições, educação que não atende nem contempla o disposto na lei 10.639 de 2003 que, que inclui no currículo oficial das escolas a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura afro-brasileira, falta de políticas públicas e investimentos na área da agricultura familiar e em projetos que visem proteger as suas culturas e desenvolvimento socioeconômico.

Reunião com a comunidade quilombola de Varzeão - Dr. Ulesses

Outro problema recorrente na região é o desrespeito com o meio ambiente por parte das grandes empresas que estão devastando as florestas nativas para plantar pinus e eucaliptos sem nenhum tipo de fiscalização, a área também está sendo tomada por mineradoras que estão destruindo as matas nativas, córregos e riachos.

“O governo não faz a demarcação de nosso território, dessa forma deve ser responsabilizado por todos os danos que estamos sofrendo, pois quando não titulam nossas terras estão sendo coniventes com as mineradoras e plantadores de pinus e eucaliptos que matam nossas riquezas, nos oprime e nos forçam a sair do nosso território. Estamos o tempo todo em pé de guerra com a fiscalização ambiental que não nos deixa fazer nossas roças tradicionais, mas a mesma lei ambiental que nos impede de plantar é a que libera licenças ambientais para as grandes mineradoras destruir nossa fauna, flora e a saúde de nosso povo, tudo por ganância de poder e dinheiro.  Não somos contra o desenvolvimento, muito pelo contrário, somos a favor, mas que seja feito com responsabilidade socioambiental e com propósito de desenvolver o país como um todo e, sobre tudo a nossa região, não como está sendo feito hoje, pois só levam as riquezas de nossas terras para fora do país e nos deixam com o passivo ambiental e social. Por isso é que lutamos firmes e fortes combatendo todas as formas de opressão no campo e na cidade”. Disse Antonio Carlos de Andrade.

Em algumas comunidades visitadas foi constatado que as mesmas não têm energia elétrica, inacreditavelmente em pleno o século 21 estão às escuras, sem poder ter uma televisão, geladeira para conservar seus alimentos ou se quer uma lâmpada.

Muitos disseram, então porque construir barragens para gerar energia elétrica se a energia não é para nós, para quem é?

Pergunta dura de responder, já que não se justifica a construção de tantas usinas hidrelétricas e as comunidades ainda não foram atendidas. Como é o caso da comunidade quilombola de Areia Branca, localizada no município de Bocaiuva do Sul – Paraná. Esta comunidade está há 4 quilômetros de distância da PCH: Pequena Central Hidrelétrica de Novo Horizonte, construída no rio Pardo que corta as terras de várias comunidades quilombolas do Paraná e de São Paulo, inclusive comunidade de Areia Branca que só tem energia foto voltaica e que, se o tempo fica nublado por 1 dia, todos ficam absolutamente no escuro até que volte a fazer sol. A comunidade não entende o porquê de não poder ter acesso à energia da barragem que esta tão perto de suas casas.

Celulas fotovoltaicas - Comunidade de Areia Branca

Barragem de Novo Horizonte - Foto Daniel Castellano/Gazeta do Povo

Outra comunidade quilombola visitada foi o quilombo Invernada Paiol de Telha, localizado no município de Guarapuava, fica há 257 quilômetros de Curitiba. Durante a visita na comunidade, a equipe da EAACONE conheceu a dura realidade sob a qual vive Paiol de Telha. Eles estão enfrentando uma luta histórica contra os alemães que invadiram e os expulsaram de suas terras, lutam também para que o INCRA: Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, faça a titulação de suas terras e a desafetação dos alemães que ocupa todo o território original da comunidade.

Comunidade de Invernada Paiol de Telha

Paiol de Telha está em local tomado por plantações de soja, são milhares e milhares de hectares e a comunidade não tem terra para plantar, essa situação ameaça o estilo de vida tradicional e a sobrevivência das famílias que ali moram. São muitas as ameaças que a comunidades tem enfrentado, a mais recente é um projeto de uma PCH Foz do Capão Grande e a PCH Pituquinha, estas duas barragens atingem diretamente o território da comunidade. 

A comundade Paiol de Telha rodeada de plantação de soja

Ana Maria, liderança da comunidade, diz que está sempre batendo às portas dos Governos, Federal, Estadual e Municipal para que tome providência quanto à titulação de suas terras e a implantação de políticas públicas que visem à proteção de seu território e que garantam a continuidade do modo tradicional de viver.

Mediante estas ameaças, Paiol de Telha pediu assessoria da EAACONE e do MOAB para ajudá-los a resistir contras todos estes projetos de morte que ameaçam a integridade da comunidade.

A EAACONE e MOAB são veementes a favor da vida, do respeito ao meio ambiente, às pessoas e contra todo e qualquer tipo violência, por isso, segue lutando apoiando a todos aqueles que se colocam no campo da esquerda, que lutam por justiça, paz, igualdade, dignidade e soberania popular.

Comunidade quilombola de Areia Branca - Bocaiuva do Sul

Coordenação EAACONE