Em Goiás, Mais Médicos não chega aos quilombolas

11/09/2014 09:48

Famílias kalungas viajam no mínimo quatro horas para ter atendimento

POR VINICIUS SASSINE, ENVIADO ESPECIAL

07/09/2014 7:00

Isolamento. Eduardo Fernando Cunha passa os dias numa cabana, com dores e aparente transtorno mental - Jorge William / O Globo

CAVALCANTE (GO) - No Vão de Almas, Eduardo Fernando da Cunha foi dado como morto. O trabalhador rural está recluso, passa os dias e as noites agachado numa cabana de adobe e palha, num isolamento que chegou a ser confundido com a morte. Ninguém sabe o que ele tem — o aparente transtorno mental e os relatos de dores físicas já duram 14 de seus 60 anos. Nunca houve um diagnóstico. A medicina não chega ao Vão de Almas. Faz seis anos que Eduardo esteve com um médico, no consultório de uma cidade a mais de 500 quilômetros dali.

— Uma vez, no banco, não quiseram pagar a aposentadoria dele. Acharam que ele já tinha morrido — diz um de seus irmãos, Benedito, de 50 anos.

Vão de Almas está encravada numa região montanhosa, de difícil acesso, a 90 quilômetros da pequena cidade de Cavalcante, uma das mais pobres de Goiás. O povoado é um dos que abrigam as famílias kalungas, a comunidade quilombola que ocupa o maior território no país. São oito mil pessoas que carregam as tradições de escravos fugidos da opressão.

Os kalungas foram privados de assistência em saúde básica, historicamente. Há um ano, o Mais Médicos chegou à região. Dois médicos cubanos e uma brasileira passaram a atender em Cavalcante. Mas, até agora, o Mais Médicos não chegou às comunidades quilombolas. A atuação dos médicos se restringe aos dois postos de saúde do município. Os kalungas precisam de um pau-de-arara para buscar atendimento médico em Cavalcante. E exames médicos simples, pelo SUS, só são obtidos na capital do estado. Goiânia está a 520 quilômetros de Cavalcante.

No início do programa, a presidente Dilma Rousseff prometeu prioridade às comunidades quilombolas. Ela chegou a anunciar março deste ano como limite para que todos os quilombos fossem incluídos no Mais Médicos. Os kalungas ainda estão à margem.

A cada pré-natal, R$ 100

Para buscar atendimento médico em Cavalcante, são quatro horas em cima de um caminhão. O Vão do Moleque, onde vivem 350 famílias, é ainda mais distante: 120 quilômetros, ou seis horas numa carroceria coberta com lona. Uma vez por mês, um caminhão da prefeitura faz o percurso de graça. Até cem pessoas se espremem por um lugar.

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Nesses paus-de-arara, as mulheres grávidas estão sempre presentes. Elas vão atrás de exame pré-natal na cidade. Domingas Francisco Rodrigues, de 44 anos, está grávida de seis meses do oitavo filho. Com o marido e o filho de 5 anos, ela aguardava o caminhão para chegar em casa. A cada pré-natal, o casal gasta R$ 100 com transporte.

O agente de saúde de Vão de Almas, Anísio Pereira Dias, de 53, resume a rotina dos kalungas:

— Médico aqui não vem. A gente costuma falar que a pessoa só vai ao hospital quando já é para levar o defunto. E na unidade de saúde falta tudo. Exame, prevenção, raios-X.

A comunidade kalunga do Engenho 2, que fica a 26 quilômetros de Cavalcante, tem um posto de saúde. Uma placa do governo federal sinaliza que a unidade deveria ter sido reformada até junho deste ano. Nem a reforma ocorreu nem as portas do postinho estão abertas.

A ideia inicial era que um profissional do Mais Médicos desse expediente no Engenho 2, onde vivem 120 famílias, duas vezes por semana. Nos últimos dois meses, ocorreu apenas uma visita. Com a unidade fechada, as fichas dos pacientes ficam retidas, o que dificulta o atendimento na cidade.

Faltam exames básicos

Poucos recursos. Leopoldo Maia, com o filho Francisco, que está há 16 anos numa cama, após AVC - Jorge William / O Globo

 

Francisco Maia, de 57 anos, está há 16 anos numa cama, sem o movimento das pernas e com um limitado movimento das mãos, por conta de um acidente vascular cerebral (AVC). Tem a companhia do pai, Leopoldo Maia, de 85, o seu Lió. Ele conta que o filho só melhorou depois de procurarem um curandeiro em Campos Belos, a 130 quilômetros de Cavalcante. A receita do curandeiro foi um punhado de ervas medicinais e não comer carne de porco e de gado. Seu Lió acha que o filho está melhor:

— O recurso na cidade é pouco. A gente precisa ir para fora. Os hospitais de Goiânia e de Brasília nunca deram jeito. Ele só arranjou melhora em Campos Belos.

Um dos médicos cubanos é Livan Curbelo, de 45, há dez meses em Cavalcante. Ele conta que a falta de exames básicos é problema comum a diferentes regiões onde o Mais Médicos chega.

— Essas comunidades são muito isoladas. As carências são muito fortes nos lugares mais intrincados — diz Livan.


Fonte: O Globo