Mineração ameaça 20% das áreas de proteção

27/11/2014 11:48

Cientistas brasileiros e ingleses mapearam 315 mil km² em risco só na Amazônia

POR CLEIDE CARVALHO
07/11/2014 6:00
Fratura exposta. Uma grande mina de ferro na região de Carajás, no Pará: um dos projetos em tramitação do Congresso reserva 10% de todas as reservas naturais à exploração mineral Foto: Jacques Jangoux / Photoresearchers

SÃO PAULO - Pelo menos 20% das áreas de proteção ambiental integral no Brasil, incluindo as terras indígenas, estão ameaçadas por interesses de exploração mineral com pedidos de pesquisa protocolados no Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), do Ministério das Minas e Energia. De 505 unidades de proteção integral analisadas, 236 têm pedido de pesquisa mineral - 47% do total. De 578 terras indígenas, 251 (ou 43%) estão na mesma situação.

A áreas foram identificadas por pesquisadores brasileiros e britânicos, que fizeram a sobreposição dos registros do DNPM aos mapas das unidades de conservação. O estudo, publicado pela revista “Science”, mostra que a Amazônia tem 315.560 quilômetros quadrados de áreas sob risco - ou algo como sete vezes o Estado do Rio de Janeiro. Desse total, 34.117 quilômetros quadrados integram unidades de conservação integral, e 281.443 quilômetros quadrados estão em terras indígenas. Chama ainda a atenção os interesses de mineração em mais de dois mil quilômetros quadrados de reservas de Mata Atlântica, o bioma mais devastado do país, com só 8,5% da cobertura original. Já o terceiro bioma mais visado é a caatinga, onde as áreas de interesse mineral abrangem 440 quilômetros quadrados em áreas protegidas.

No artigo, os cientistas lembram que o Brasil demorou dez anos para criar o Sistema Nacional de Áreas Protegidas, consolidado após consulta à sociedade, e projetos de lei que reduzem áreas de proteção tramitam silenciosamente no Congresso Nacional sem que os brasileiros se deem conta do seu conteúdo. Um desses projetos, o 3.682/2012, é citado na revista. Ele permite a mineração em todas as unidades de conservação, limitando a atividade a 10% do total das terras.

- As áreas de conservação integral abrigam ecossistemas e espécies-chave, que só ocorrem ali. Um exemplo é a Reserva Biológica de Poço das Antas, no Rio. O mico-leão-dourado só vive ali. Cada caso é um caso, e não é possível estabelecer um percentual válido para todas - afirma Luiz Aragão, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), um dos signatários do estudo.

Os cientistas lembram que desmatar a Floresta Amazônica significa colocar em risco o ciclo de chuvas em outras regiões do país, como o Sudeste, que agora já sofre com seca. Paulo Barreto, pesquisador do Imazon, diz que a própria Amazônia já sofreu com secas intensas em 2005 e 2010:

- As secas intensas na Amazônia só ocorriam de cem em cem anos. Mas nos últimos cinco houve duas bem graves. E a chuva no resto do país depende da umidade que sai da região.

A seca atinge seis das principais bacias hidrográficas brasileiras, entre elas a do Rio São Francisco, que nasce na Serra da Canastra (MG). O Parque Nacional da Serra da Canastra é ameaçado pela mineração. A intenção é explorar diamantes. Joice Ferreira, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental, diz não ser possível limitar os danos da mineração a só um pedaço das reservas.

- Mesmo que a área minerada seja pequena, são construídas estradas e obras de infraestrutura. Os projetos geram migração, provocam pressão de desmatamento e degradação - diz Joice, assinalando que o estudo é mais um alerta dos cientistas às autoridades. - Se tomarem a decisão errada, será um caminho sem volta. Um projeto de mineração dura 50 anos. As florestas são um tesouro mais valioso e de longo prazo.

Fonte: O Globo